Viagem Apostólica ao Iraque: um dos momentos do encontro inter-religioso em Ur dos Caldeus
Papa Francisco faz viagem histórica ao Iraque
Crédito da foto - Vatican Media

Nos dias 5 a 8 de março, no aniversário de oito anos do seu pontificado, o papa Francisco realizou sua 33ª Viagem Apostólica. Desta vez, o destino escolhido foi o Iraque. Ele escolheu para a viagem o lema "Sois todos irmãos", extraído do Evangelho de Mateus. A visita foi um grande marco para as ligações inter-religiosas, pois Francisco se reuniu com o principal líder religioso dos mulçumanos xiitas, aiatolá Ali al-Sistani, além de várias autoridades do país. Na viagem, o papa enfatizou a necessidade de paz, independente da crença religiosa. Francisco visitou as cidades de Bagdá, Mossul, Qaragosh, Ur e Erbil. 


Em seu primeiro dia de viagem, o papa desembarcou na capital Bagdá onde foi recepcionado pelo primeiro-ministro Mustafa Abdellatif Mshatat e por uma delegação do Governo. Ao desembarcar, ele fez uma declaração aos jornalistas na qual condenou a violência e “a praga da corrupção, dos abusos de poder e da ilegalidade em que o país mergulhou nos últimos tempos”. “Chega de extremismos, facções, intolerâncias”, declarou. Mas também lançou uma mensagem para navegantes internacionais que não devem “impor interesses ideológicos e políticos”, numa defesa da soberania do país que o acolhe nestes dias. “Que cessem os interesses particulares, esses interesses externos que são indiferentes à população local.” Logo após, o pontífice se direcionou até o palácio presidencial a bordo de um carro blindado, onde foi recebido pelo presidente do Iraque, Barham Ahmed Salih Qassim. Ao final do encontro, o Santo Padre se dirigiu à Catedral de Sayidat al-Nejat (Nossa Senhora da Salvação) para o encontro com os bispos, sacerdotes, religiosos, seminaristas e catequistas.


Ao final do segundo dia da sua 33ª Viagem Apostólica, o papa retornou à cidade de Bagdá, onde rezou a Santa Missa na Catedral Caldeia de São José. Em sua primeira homilia, no Iraque, Francisco falou sobre sabedoria, o testemunho e as promessas. “Nem a fuga, nem a espada resolveram coisa alguma. Ao contrário, Jesus mudou a história. Como? Com a força humilde do amor, com o seu paciente testemunho. O mesmo somos nós chamados a fazer; assim Deus realiza as suas promessas”, refletiu. E ele finalizou dizendo: “Querida irmã, querido irmão, talvez olhes para as tuas mãos e te pareçam vazias, talvez sintas insinuar-se no coração a desconfiança e penses que a vida é injusta contigo. Se tal suceder, não temas! As Bem-aventuranças são para ti, para ti que estás na aflição, com fome e sede de justiça, perseguido.”


Após isso, o papa Francisco foi até a cidade santa de Qaraqosh. Durante um encontro de oração na Catedral da Imaculada Conceição, o pontífice entregou ao arcebispo de Mosul Dom Yohanna Butros Mouché, o livro Sagrado de Sidra. Os escritos do século XIII pertencem à Igreja sírio-cristã e foram recuperados na Itália pela Federação de Organizações Cristãs de Serviço Voluntário Internacional (Focsiv), depois dos ataques do Estado Islâmico.


O último evento público do papa Francisco, na sua visita histórica ao Iraque, foi a celebração da Santa Missa, no Estádio Franso Hariri, em Erbil. Vale lembrar que apenas 1% da população do Iraque é cristã, e também que essa é a primeira vez que um pontífice da Igreja Católica visita o país. Durante sua homilia Francisco disse “A Igreja no Iraque, com a graça de Deus, fez e continua a fazer muito para proclamar esta sabedoria maravilhosa da cruz, espalhando a misericórdia e o perdão de Cristo especialmente junto dos mais necessitados. Mesmo no meio de grande pobreza e tantas dificuldades, muitos de vocês oferecem generosamente ajuda concreta e solidariedade aos pobres e atribulados. Esse é um dos motivos que me impeliu a vir em peregrinação até junto de vocês, ou seja, para agradecer e confirmar na fé e no testemunho. Hoje, posso ver e tocar com a mão que a Igreja no Iraque está viva, que Cristo vive e age neste seu povo santo e fiel.” Ele falou ainda que com a força de Cristo e do Espírito Santo, conseguimos nos tornar “instrumentos da paz de Deus e da sua misericórdia, artífices pacientes e corajosos de uma nova ordem social”.


No segundo dia da Viagem Apostólica, o papa se encontrou com o líder xiita, aiatolá Ali al-Sistani. O encontro ocorreu na cidade de Najaf, no sul do país. Foi a primeira vez que um papa se encontrou com um líder xiita sênior. De acordo com a Agência Reuters, o líder xiita só concordou em se encontrar com o papa com a condição de que nenhuma autoridade iraquiana estivesse presente. Aiatolá é uma grande liderança para o islamismo xiita, tanto no Iraque como fora dele. Ele exerce enorme influência sobre a política. Seus decretos enviaram iraquianos às urnas eleitorais pela primeira vez em 2005, reuniram centenas de milhares de homens para lutar contra o Estado Islâmico em 2014 e derrubaram um governo iraquiano sob pressão de manifestações em 2019. Ele raramente faz reuniões e recusou negociações com os atuais e ex-primeiros-ministros do Iraque.

 

Francisco visitou também a planície de Ur, a cidade natal do profeta Abraão. Lá o papa se reuniu com líderes religiosos para uma mensagem comum de paz: \"Quem acredita em Deus não tem inimigos para combater\". Ele disse ainda que “Deste lugar, onde a fé nasceu, da terra do nosso pai Abraão, nos permite afirmar que Deus é misericordioso e que a maior blasfêmia é profanar seu nome com ódio aos nossos irmãos e irmãs\", afirmou. E falou ainda: “Não permitamos que a luz do Céu seja ocultada pelas nuvens do ódio! Sobre este país, acumularam-se as nuvens negras do terrorismo, da guerra e da violência. Com isso, sofreram todas as comunidades étnicas e religiosas; de modo particular quero recordar a comunidade yazidi, que chorou a morte de muitos homens e viu milhares de mulheres, donzelas e crianças raptadas, vendidas como escravas e sujeitas às violências físicas e conversões forçadas. Hoje rezamos por todas as vítimas de tais sofrimentos, por quantos ainda estão dispersos e sequestrados para que regressem brevemente às suas casas”.


No terceiro dia de sua visita ao Iraque, logo cedo, o sucessor de Pedro partiu rumo à cidade de Erbil. Na chegada, foi recebido pelo arcebispo de Erbil dos caldeus, Dom Bashar Matti Warda; pelo arcebispo de Hadiab-Erbil dos sírios, Dom Nizar Semaan; pelo presidente e pelo primeiro-ministro da Região Autônoma do Curdistão Iraquiano. No aeroporto mesmo, eles tiveram uma pequena reunião. Depois disso, o papa seguiu rumo à cidade Mosul, onde fez um momento de oração em sufrágio às vítimas da guerra. Ele saudou aos presentes dizendo: “Hoje, apesar de tudo, reafirmamos a nossa convicção de que a fraternidade é mais forte que o fratricídio, que a esperança é mais forte que a morte, que a paz é mais forte que a guerra”. Durante a oração, pediu ao Senhor “Deus Altíssimo, Senhor do tempo e da história, por amor criastes o mundo e nunca cessais de derramar as vossas bênçãos sobre as vossas criaturas. Com terno amor de Pai, acompanhais os vossos filhos e filhas, para além do oceano do sofrimento e da morte, para além das tentações da violência, da injustiça e do lucro iníquo.” 


E, finalmente, no dia 8 de março, o sucessor de Pedro se despediu do Iraque. Primeiro, ele rezou uma missa de forma privada, depois se dirigiu ao Aeroporto para a cerimônia de despedidas, sendo acolhido pelo presidente da República Barham Ahmed Salih Qassim. “Desta terra, há milênios, Abraão começou a sua viagem. Hoje cabe a nós continuá-la, com o mesmo espírito, caminhando juntos pelos caminhos da paz! Por esta razão, invoco sobre vocês toda a paz e a bênção do Altíssimo. E peço a todos vocês que façam o mesmo que Abraão: caminhem com esperança e nunca deixem de olhar para as estrelas”, despediu-se o papa Francisco.


Arquidiocese de Goiânia

(Suzany Marques com informações do Vatican News)

 
Indique a um amigo
 
 
Notícias relacionadas